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Mais um passo...
Longe, bem longe, onde o Sol não chega, mais perto da mão que me puxa para si, fundo, cada vez mais fundo, até nem um raio de luz quebrar o terror e a monotonia daquela escuridão lúgubre, voraz, esfomeada. Para onde vou? Não sei, o fim? Talvez, tão doce? Jamais. Rostos que vejo, se seguem, se amontoam, quem são? Antepassados, quem sabe? Não creio. Tão bem conservados, nesta poética teia da vida, conjugando lágrimas e sorrisos, numa rima, o fim, tão perto. Já foi, passou esse comboio flamejante, da chaminé as almas libertas voando, no céu formando melancólicas nuvens, que vestem infame céu e pressagiam a desgraça. Na fábrica, um grito, agudo, lento, perturbante, também quero, só mais um tombando perante a mão que o puxa, a máquina que o fadiga, e moribunda sorte que apostadores do ocaso a ele reservaram. Só mais um, tantos foram, tantos irão nesta avalanche, forçada, fingida, causada, a dor, o infinito da mente? Quimera, ilusão. Viajo no pensamento pensado que o pensador para mim pensou, poupando-me à morte a fadiga do azul celeste agarrando-me, prendendo-me, perco o barco. Vou a nado? Tão pouco mar, oceanos, rios, invisÃveis sonhos nele bóiam, já sem vida, fielmente abandonado à feroz corrente alegre que os consome, mas os mantém em seu leito estrelado, brilhante melodia que para o fundo atrai os benjamins, que voam mergulhando, a cabeça o fundo alcança e boiando à tona peçonhenta vêm, e não se libertam. Cada vez mais fundo, mais longe, meu cadáver ainda respira, sem vida, já não sou, nem quero, a infeliz passadeira que corria sob os meus pés inamovÃveis, parados, arrastados, foram indo, pelos campos floridos vendo arrancar os frutos do meu pensamento. Secando, sorrindo, morrendo, cantando, o fim do princÃpio. Tão triste, a morte? Não. Tão triste ter vivido.
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Noite de Paz, Noite de Miséria
Por todo o lado começam a surgir, e em demasia, os vestÃgios de que a época natalÃcia se aproxima, os Pais Natal pendurados um pouco por toda a parte, multiplicam-se de dia para dia, variam nos formatos e nos tamanhos, mas estão lá, para qualquer lado que olhemos lá estão eles, descendo algo com o saco à s costas, presentes que trás à s crianças ou notas que leva ás pessoas a duvida persiste, acenando, sorrindo, ou de qualquer outra maneira, o que importa é possuir uma figura barbuda trajada de vermelho em qualquer superfÃcie comercial onde entremos, ao homenzinho da Lapónia, e de traje patrocinado pela Cola-Cola, não podemos esquecer de acrescentar as mÃticas árvores, as estrelas, os reis magos e de tudo um pouco que ao Natal se possa associar. Por todo o lado é ver crianças embascadas em frente a montras, quem diz crianças diz adultos, todos no mais profundo desejo de tudo ter, as crianças escrevem cartas ao Pai Natal para que este lhes traga mil e uma coisas, e os pais, esses, fazem contas aos cêntimos para ver o que poderá o Pai Natal naquele ano trazer, depois é ver rostos desiludidos de miúdos porque o velhote de vermelho não lhe trouxe a consola, o jogo ou telemóvel que queria. E sim, o Natal resume-se a isto, uma indústria, mais uma forma dos interesses financeiros de todas as grandes empresas continuarem a lucrar, e o povo continua, de olhos vendados, a seguir cegamente tudo isto, endividado, edivida-se ainda mais, sem dinheiro, não faz mal, por mais uns euros compram-se as tão indispensáveis prendas, e a miséria, oh, que se lixe! Que seja um ano de fome, que os miúdos continuem sem livros, que as contas continuem por pagar, mas no Natal, nessa tão $ignifcante data, as prendas não podem faltar, para a mulher, os filhos, o vizinho, o primo e até aquele amigo que se fala uma vez por ano, normalmente quando se dá a prenda. Jesus Cristo, quem é esse? "Ah, sim aquele gajo da majedoura, a palha, a vaca, o burro", "Lembro-me de ver um presépio no Shopping e tava lá esse, mas que é que ele tem a ver com o Natal?", óbvio exagero este o meu, simboliza no entanto o facto das pessoas se esquecerem do porquê do Natal, aniversário do nascimento de Jesus Cristo, mas, fará isso algum sentido se nem foi esse o dia em que Cristo nasceu? Hoje em dia tudo se associa ao natal, todas as lojas, todos os productos, vai desde as mais simbólicas velas até aos mais extravagantes acessórios sexuais. O Natal é uma marca, Pai Natal um rosto maior, e Cristo um rosto menor. Se pensarmos nos rios de dinheiros que por esse mundo fora são dispendidos com tudo o que se relacione com este dia, se olharmos para os magros corpos das crianças africanas, pensamos que seriam suficiente os milhões de dólares natalÃcios para salvar um continente. Faz-nos pensar que enquanto uns se deliciam com os mais refinados manjares outros continuam a não ter nada que comer, nem nessa noite, essa noite que a Igreja diz ser de paz, união e amor, não é necessário ir até Ãfrica, Ãsia ou outro qualquer lugar pobre, basta pensarmos, quantas, quantas pessoas nesta noite choram por nem o bacalhau poderem dar aos seus filhos de comer, por nem 1 simples boneco lhes poderem oferecer, mas o amor, sim essa palavra que no Natal paraece esquecida ou incompreensÃvel é o maior. Porque enquanto uns riem à gargalhada comentando as fúteis prendas que receberam, outros choram, desesperam, caem e morrem por nada mas nada o Pai Natal lhes trazer, ano após ano, esquecidos? Talvez, esquecidos por uma máquina que os atropela e não os deixa viver o Natal da maneira que essa mesma máquina institucionalizou.
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Um último abraço...
Bocados de uma vida dedicada a uma história de amor voam pelo ar como farripas, que soltas sem qualquer ligação se tentam agrupar numa constante dança coreografada pelo vento, relação sem rebentos, relação que nada deixa neste mundo senão a dor de amar e tanto mal nos causar aquele que amamos. Só nela via a vida, só ela era o seu mundo, nada mais para ele contava, nada mais para ele existia, mesmo assim não desistia, não podia desistir do único verdadeiro amor da sua vida, aquele de perdição, aquele que o levou a cometer todas as loucuras, aquele que o levou a perder o amor próprio, aquele que fez dele o homem que hoje não é. Maldito amor que tanto o castiga e em que ele tanto insiste, sem ele não consegue viver, diz não conseguir respirar, diz não aguentar a sua ausência, diz nada ser sem ela, mas há muito que por causa dela deixou de algo ser. Todos os momentos são poucos, todos os beijos são insuficientes, quer mais e mais dela, quer que esteja lá a todo o segundo, amor de que depende para se aguentar neste mundo que sentido para ele não faz sem ela. Mas ela fere-o, constantemente mostrando-lhe que dele para nada precisa, mostrando-lhe que é totalmente independente dele, ela é apenas a dor que ele tanto ama, pobre masoquista que não sabe o que é o amor, perdeu-se de amores por quem o despreza, dedicou e perdeu a sua vida por quem acabará por originar o seu fim. Sofre em ruelas escuras por quem o faz desesperar, chora a sua desgraça, e torna-se violento pela sua falta, só pensa nela, só a quer a ela, amor doentio este que caracteriza esta tempestiva relação. Por ela deixou o emprego, perdeu os amigos, abandonou a famÃlia que sempre o acolheu, agora é filho das ruas onde ela é rainha, no pesadelo vê o sonho e no demónio, o anjo que tanto ama, de cada vez que esta abraça seu corpo, possuindo a sua alma, para logo depois o abandonar, sem data definida para voltar. Precisa de seu calor mas ela não quer vir, precisa do seu amor, mas não tem maneira de chegar até ela, ele implora, ela não ouve, ele grita, ela ignora, ele chora e ela ri, pede uma loucura, mas louco já ele está e loucuras por ela já não as vê como tal e tudo por ela fará, roubar, ferir, matar, por ela nada representa, desde que possa voltar a cair nos braços de sua amada tudo é aceitável, tudo é mÃnimo. Amor que assim se desenrola, não é mais senão cegueira. Cegueira que rói por dentro, cegueira que não faz dele mais do que um simples trapo, escravo dum amor que todos sabem impossÃvel, apenas ele continua a insistir numa história que tem um fim bem definido, já ninguém ouve, apenas o chamamento hipnotizante da sua sereia, chamamento não de quem sente falta mas de quem se quer aproveitar e servir mais uma vez de pobre coitado que a ela tudo dá sem nada em troca esperar receber, apenas o calor, apenas os braços apertando o seu já frágil corpo contra o dela. Mas ela, ela fartou-se daquele seu apaixonado, apenas mais um triste do seu infinito rol de conquistas, poucos foram o que dela se conseguiram separar, menos ainda foram os que a ela conseguiram esquecer. Agora quer livrar-se dele, não precisa mais dele, já o usou o suficiente, agora quer um brinquedo novo, novos braços para aquecer, novo sangue para envenenar. Num último e fugaz encontro, abraça-o pela última vez, um último aconchego, um último momento de amor, e parte, parte deixando-o caÃdo no sujo chão, fica a espumar da boca, último beijo venenoso que para ele representou o fim, e como ele mais uma pobre alma cairá nos encantos de encantada rainha que a todos em suas doces palavras leva.
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