O estudo "A Sociedade em Rede em Portugal", conduzido por uma equipa do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (CIES-ISCTE), em Lisboa, demonstra como as pessoas usam a Internet, adaptando a tecnologia às suas necessidades, interesses e valores, e como a sociedade em rede se está a construir em Portugal. De acordo com os resultados apresentados esta quinta-feira, o nosso país encontra-se "num momento de transição, associando traços e dinâmicas de modernidade a vestígios de uma sociedade mais arcaica que tendem a obstruir algumas das transformações em curso".
Inspirado nos trabalhos de Manuel Castells e apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, o estudo revela que cerca de 29 por cento da população portuguesa utiliza directamente a internet e 10 por cento tem tido, de alguma forma, uma aproximação a esta tecnologia. No entanto, a grande "maioria é ainda constituída por não utilizadores". Entre os mais familiarizados com este recurso, destacam-se os jovens e os indivíduos mais qualificados.
No que diz respeito aos locais onde as pessoas mais usam a internet, em Portugal, ao contrário do que ocorre noutros países, o espaço doméstico é o mais utilizado. Apesar disto, os primeiros contactos com esta tecnologia acontecem fora de casa.
Relativamente às actividades desenvolvidas através da rede, em Portugal, tal como noutros países, a internet não é apenas um mero meio de circulação de informação, mas um espaço de lazer, entretenimento e sociabilidade para os mais jovens, e um instrumento de ordem prática, profissional e cultural para os mais velhos.
Este estudo serviu também para contrariar a tese de que a internet viria substituir os media tradicionais, como a televisão, rádio e imprensa escrita. Na realidade, tornou-se num meio de comunicação adicional, tendo apenas contribuído para uma ligeira diminuição de determinadas práticas, como ver televisão, vídeos e DVDs.
Os responsáveis por esta investigação consideram que o alargamento do número de utilizadores e o enriquecimento das formas de utilização depende do fim da desigualdade tecnológica de acesso à Internet. No entanto, nos dias de hoje, tal facto implicaria a diminuição das desigualdades educativas e culturais.
O estudo "A Sociedade em Rede em Portugal" foi já editado em livro pela Campo das Letras. No prefácio, o director do Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, João Caraça, considera que "a emergência da sociedade em rede implica a definição de novos comportamentos", como a transformação dos sistemas de educação para que se aprenda eficazmente a ler e a escrever na Internet. A sociedade que não adoptar este modelo "fica irremediavelmente no século passado", acrescenta ainda João Caraça.
Ao longo deste livro estão patentes diversas análises à transição de Portugal para uma sociedade em rede, de base informacional e às diferentes influências da Internet na vida quotidiana dos portugueses.
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