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Ponte Vasco da Gama falhou várias promessas, mas retirou camiões de Lisboa
 publicado em 2008-03-29 11:50:13

Há um travo amargo na comemoração, hoje, dos dez anos da Ponte Vasco da Gama. A obra mais emblemática dos anos 1990, que movimentou centenas de milhões de euros, que alimentou polémicas dentro e fora de Portugal e que foi alvo da maior guerra jamais movida por associações ambientalistas no país, não cumpriu várias das suas promessas.
Ponte Vasco da Gama falhou várias promessas, mas retirou camiões de Lisboa
A primeira era a de aliviar o infernal trânsito na Ponte 25 de Abril. A Lusoponte, concessionária da travessia do Tejo em Lisboa, diz que este não era o objectivo da obra e que desde cedo as projecções indicavam que em 2004 a velha ponte estaria novamente congestionada.

Mas não é o que dizem outros documentos, entre eles o estudo de impacte ambiental apresentado pela própria Lusoponte em 1994. E o tráfego na Ponte 25 de Abril é hoje cerca de 15 por cento maior do que em 1998.

A Lusoponte atira responsabilidades ao Governo, argumentando, por exemplo, que o preço das portagens nas duas pontes devia ser o mesmo, mas foi o executivo que quis manter o da 25 de Abril mais baixo. Também as ligações essenciais para as duas pontes, que eram responsabilidade da administração central, se atrasaram ou ainda estão por construir.

Onde a Ponte Vasco da Gama mais cumpriu a sua função foi no desvio do trânsito pesado do interior de Lisboa. Hoje, a nova ponte tem 20 por cento mais trânsito pesado do que a antiga. São quatro milhões de camiões que deixaram de entrar na cidade, por ano, segundo a Lusoponte.

Resultado à vista

Ambientalistas vêem na expansão urbana na Margem Sul do Tejo a confirmação dos seus maiores receios. "O resultado está à vista, basta ir ao Montijo, Alcochete, Benavente ou Palmela", afirma João Joanaz de Melo, um dos rostos da guerra contra a ponte nos anos 1990. "Houve um aumento da área urbana dispersa, não consolidada", completa.

A mesma opinião tem o presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, Fonseca Ferreira. "Qualitativamente, os padrões de desordenamento não fugiram ao que se temia. O crescimento é muito disperso, a não ser em Alcochete", diz.

O acompanhamento pormenorizado da urbanização induzida pela ponte era outra promessa que se fez na altura. E começou bem, com a criação do Observatório da Nova Travessia do Tejo, em 1998.

Foi montado um sistema de monitorização dos licenciamentos, em tempo real, nos concelhos sob influência da ponte e fizeram-se estudos sobre os efeitos nos primeiros anos. Mas, por falta de recursos, o observatório fechou as portas em 2001 e o trabalho ficou por ali.

Nos custos, também a ponte frustrou as expectativas. A sua construção prometia não onerar o Estado. Mas não foi o que aconteceu. O Governo foi obrigado a repor a perda de receitas das portagens na Ponte 25 de Abril, na sequência do "buzinão" de 1994.

Dos cofres públicos já saíram 202 milhões de euros para a Lusoponte e vão ainda sair mais 16 milhões - ou seja, um quarto do valor da ponte. O Tribunal de Contas fez outros cálculos e chegou a uma factura muito maior.

Aves em bom estado

As aves são um capítulo à parte. Mesmo os ambientalistas mais contrários à localização da ponte reconhecem que, para já, não houve efeitos nefastos. "Do ponto de vista estrito da conservação das aves, não se perdeu muito. Conseguiram-se medidas de compensação importantes", afirma Jorge Palmeirim, ex-presidente da Liga para a Protecção da Natureza.

Ampliou-se a Zona de Protecção Especial do Tejo e expropriaram-se 400 hectares de salinas no Samouco, Alcochete - onde as aves se alimentam e fazem ninhos. A sua mera posse pública evitou usos privados que destruíssem aqueles habitats. Mas a fundação criada pelo Governo para gerir aquele espaço e fazer dele um centro de excelência ambiental falhou, por falta das verbas. Hoje encontra-se moribunda e as próprias salinas estão a deteriorar-se.




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